A cultura alternativa… ou o “faça você mesmo”

Alguns pesquisadores afirmam que a cultura do “Faça você mesmo” (popularmente conhecida também pela sigla DIY, isto é, do it yourself) remete originalmente à época da Segunda Guerra Mundial, anos 50, quando recursos e materiais se tornam escassos, conduzindo a sociedade a descobrir novas formas de produzir bens de consumo. Assim, autoridades americanas e europeias orientavam as mulheres a aproveitarem o material disponível em casa, transformando cortinas em vestidos, lenços em bolsas, madeira em sapatos. Outros sugerem que o comportamento tem muito a ver com o movimento punk e sua estética anticonsumista e anticapitalista, que defendia, nos anos 70, a ideia de que deveríamos ser responsáveis pelo que consumíamos, desde o corte de cabelo, passando pela música, até as roupas. Na cultura punk, tudo era produzido pelos próprios indivíduos, daí a grandeza da simplicidade das músicas de poucos acordes e de uma estética que, paradoxalmente, décadas depois se tornaria também um bem de consumo massificado (vide produtos como tachinhas, caveiras, roupas de couro e coturnos que, isolados de seu contexto político, se tornam tendência de moda).
Ícones do movimento punk: Malcom McLaren e Vivienne Westwood e sua boutique Sex
Ícones do movimento punk: Malcom McLaren e Vivienne Westwood e sua boutique Sex
 O fato é que é difícil determinar uma origem precisa da cultura do “Faça você mesmo”, pois seu espírito, por assim dizer, permeia a história social do ocidente desde o século XIX, quando revistas de moda,moldes e costura começam a circular entre a parcela letrada da população, inclusive no Brasil. Confinadas a maior parte do tempo em casa, numa época em que era difícil ter acesso ao comércio local ou estrangeiro, as mulheres se voltavam aos fazeres domésticos, como costurar e bordar. Assim, a assinatura de revistas de moda, com suas instruções para moldes de roupas, se torna um hábito que perdurou entre mulheres da sociedade, sobretudo depois da popularização da máquina de costura doméstica.

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Nesse sentido, o importante é ressaltar que, embora a cultura DIY permeie a sociedade há tempos, cada época apresenta características distintas em relação ao ato de valorizar e estimular os fazeres manuaise artesanais. Seja em pequena ou grande escala (como é o exemplo, hoje em dia, das cooperativas e das associações de artesãos), o século 21 observa um retorno à prática do “Faça você mesmo”. O pesquisador George McKey, autor do livro DIY Culture – Party & Protest in Nineties Britain, fala de uma “nostalgia crítica” atual em relação ao tema. Se antes o “Faça você mesmo” se relacionava à austeridade de uma determinada época ou à crítica agressiva ao consumismo, como era o caso domovimento punk, hoje ele é revisitado de forma mais branda, gradual e fortemente conectado àtecnologia, que faz o papel antes vivido tanto pelas revistas de moldes quanto pelas autoridades que estimulavam a criatividade individual. Sem o radicalismo punk, nem a passividade do público feminino do século 19, a cultura DIY parece se situar no equilíbrio, dialogando com temas específicos da atualidade, como sustentabilidade, hiperconsumismo e cultura de massa. Daí serem cada vez mais valorizadas alternativas à prática do consumo desenfreado que, por sua vez, causa danos ao meio ambiente. Na moda, é possível ver isso na criação de alguns estilistas que buscam, através do trabalho de cooperativas de artesãos, introduzir elementos manufaturados em suas peças. Nas artes e nacultura em geral, uma esfera desse tipo de filosofia pode ser vista na criação de coletivos artísticos, na adoção de espaços abandonados para exposições e festivais, e na organização de trocas de bens de consumo, como roupas, livros e brinquedos, entre um determinado grupo.

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Assim, pode-se observar o grande número de sites, blogs e revistas que apresentam ideias e instruções para o fazer manual, pondo em evidência o caráter de exclusividade e de personalismo que há em cada objeto criado individualmente, em contraponto ao excesso e ao industrialismo da era pós-moderna.

artigo de: http://modamodamoda.com.br/author/christineazzi/
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